Entrevista com Cassio Scapin

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Entrevista com Cassio Scapin

Na estreia da temporada do espetáculo “Eu não dava praquilo” em Porto Alegre, no Teatro do Centro Histórico-Cultural da Santa Casa, o ator Cassio Scapin falou sobre a trajetória da atriz Myrian Muniz, que é a personagem representada por ele nos palcos. A admiração de Scapin por Myrian e pelo envolvimento dela com o teatro permeou suas falas, de forma a celebrar suas características peculiares. O ofício de ser ator é homenageado a partir da vida da atriz, com base em suas crenças e suas experiências.

Como a peça acontece?
Essa peça é inédita, quem a escreveu foi um poeta de São Paulo, chamado Cássio Junqueira e eu. Escrevemos a quatro mãos e surgiu de um vídeo da Myrian Muniz, que foi uma atriz paulista muito importante para o teatro paulista e para o teatro nacional; foi fundadora do Teatro de Arena, importante na época da repressão. A Myrian era uma atriz absolutamente diferente dos parâmetros dos atores que conhecemos hoje. Por exemplo, ela era avessa à mídia, não gostava de ser famosa, gostava de ser atriz, porque achava que uma coisa não precisava ter a ver com a outra. Ela fez uma das primeiras novelas mais importantes da televisão brasileira, chamada “Nino, o italianinho” e virou um fenômeno na rua. Então, começou a odiar isso. Teve um percurso muito engraçado, porque era de uma família muito religiosa, muito careta e muito austera e não sabia muito o que fazer da vida, só sabia que queria fazer alguma coisa para ajudar as pessoas. Ela começou a se embrenhar em várias profissões, até que se deparou com a Escola de Artes Dramáticas, que era na frente da casa dela. Começou a frequentar esse núcleo de atores na Escola de Artes Dramáticas e desenvolveu esse talento. Como a Myrian sempre foi muito avessa a entrevistas, não existem muitos registros dela. Quando ela estava bem velhinha, as amigas dela falaram: “Myrian, você tem que deixar um registro”, e fizeram uma entrevista em casa com ela, muito caseira e simples. E quando a Myrian faleceu, elas editaram essa entrevista, que eram horas, e entregaram para os amigos. E resultou, para quem gosta de teatro, em um depoimento muito importante, que me deixava sempre muito emocionado quando eu via. Então, para todo mundo que eu podia, eu mostrava esse depoimento. Mostrei para o Cassio, e ele também se apaixonou e perguntou por que eu não fazia uma peça. E a Myrian, em vida, sempre dizia que queria fazer uma peça em que ficasse sentada contando umas histórias e falando uns poemas, falando umas coisas que gostasse. E a gente fez isso para ela. Mas, nesse espetáculo, tem poemas que a Myrian nunca disse e fizemos como a Myrian diria, se fosse dizê-los. [A peça] é para, além de celebrar a figura da Myrian, celebrar também o ofício do ator, dessa profissão que é tão importante pra gente e que é tão, às vezes, confundida, renegada e colocada em segundo plano. É quase um sacerdócio ser ator e era essa dinâmica que a Myrian tinha com a profissão.

Você chegou a conhecê-la?
Sim, eu conheci a Myrian. Não fui próximo, mas a conheci bem. Não éramos amigões, mas uma pessoa próxima que eu tinha bastante convívio.

Já que você falou que a peça seria ela sozinha, é difícil estar sozinho no palco fazendo isso?
A dificuldade para nós foi construir isso sem nenhum artifício, porque eu não me visto de mulher, não tenho peruca. O processo é a transformação do ator em cena, é o que a Myrian acreditava: que o ator pudesse construir o que ele quisesse ser. Então, a gente fez isso. A gente constrói essa mulher, a Myrian, e quem assiste tem a impressão que está vendo a Myrian em cena, mas uma personagem com alma feminina – a alma desta mulher é o que está em primeiro plano. O Jô Soares fala uma coisa muito legal: não existe monólogo, existe espetáculo solo. Uma vez que entra a plateia entra em cena é um discurso direto e ninguém fala sozinho. Você se comunica com alguém. Então, a gente está sozinho, mas não está. Porque cinquenta por cento do trabalho do ator é da plateia. Quem tem que exercitar a imaginação, o olhar subjetivo é a plateia. Diferentemente do cinema e da televisão, o teatro não precisa ter a porta, a janela, o rio passando… Você pode sugerir isso e cabe à plateia imaginar o rio, a janela e materializar junto com o ator esse espaço que ele sugere.

Tem uma grande co-relação com a literatura, não?
A literatura fornece isso brutamente. Você tem que ler e imaginar aquilo. O ator é esse facilitador, talvez, da literatura. Ele sugere o sentimento, o espaço, a emoção, a ideia. A gente brinca que, no teatro, tem um ‘fosso da orquestra’, então, cabe ao ator ter o trabalho de diminuir o máximo possível a distância daquilo que estou querendo dizer e daquilo que você está entendendo. Então, como você, como ator, consegue fazer uma sintonia fina para que estejamos naquele momento, naquele espetáculo, na mesma sintonia. Para que estejamos entendendo e conversando na mesma história, sem perder o referencial [da plateia].

Falando um pouco mais sobre a Myrian, o que mais lhe chama atenção na arte dela, ou na forma como ela se relacionava com a arte que vocês quiseram colocar na peça que servisse de inspiração?
A mínima distância que a Myrian tinha da vida dela com o ofício. Ela só se entendia como atriz. Isso é muito significativo para mim. O ator tem essa coisa de dar, e a Myrian tinha isso na vida. Se você fosse na casa dela e fosse embora, ela falaria: “Nego, tá indo embora de mão vazia? Toma [esse objeto] pra você”. E não importava o quê, ela não tinha esse apego a nada. Isso era até um pouco incômodo, porque ela não tinha apego com ela, com personagens – ela não tinha vaidade, a vaidade dela residia em outro lugar, que era no trabalho, na importância de ser boa atriz e de emocionar. Mas as vaidades pequenas, materiais, não tinha nenhuma.

E vocês conseguiram introduzir isso na peça?
Sim, acredito que sim.

E o que ainda faz a Myrian ser atual?
Primeiro, como ela encarava o ofício do ator. Acho que essa é uma discussão que está presente o tempo inteiro, é sempre essa dúvida que o ator tem entre a sobrevivência dele e a execução do trabalho. A importância de que a gente tenha de valorizar e compreender o outro para se entender, então, acho que isso é quase que um clássico. A Myrian descobriu que era uma maravilha descobrir que você pode fazer o outro, que, entendendo o outro, você se entende também. O que interessava para ela era pesquisar, se relacionar e se conhecer. Ela não entendia o trabalho do ator se não fosse um trabalho de aprofundamento, de conhecimento do outro e de auto-conhecimento.

O que você gostaria que o público saísse entendendo sobre a peça?
Que as pessoas mudassem os conceitos de valoração delas, que não dessem tanta importância a questões superficiais, que compreendessem que, às vezes em um lugar muito pequeno e artesanal, pode ter uma pedra preciosa muito importante e, só pelo fato de não ser comercializada e anunciada, não quer dizer que seja menos importante – pode ser até mais importante do que aquilo que está em evidência. Gostaria que descobrissem as coisas mas simples por, às vezes, se deixarem levar pelo glamour, pela ostentação, pela mídia.

CHC
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