Entrevista com o ator Philipe Philippsen

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Entrevista com o ator Philipe Philippsen

O personagem de Philipe Philippsen, originalmente, é apenas citado no texto que possibilitou a encenação de Língua Mãe. Mameloschn, escrito pela dramaturga russa Marianna Salzmann. Davi, irmão de Raquel na peça, agora aparece em cena, embora sem falas. Na noite de estreia no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, Philippsen conversou sobre elementos judaicos e os conflitos de gerações presentes no enredo. A montagem pré-estreou no ano passado no Palco Giratório do Sesc e as quatro primeiras temporadas, até hoje, estiveram no Instituto Goethe. Em 2015, foi vencedora como melhor espetáculo no Prêmio Açorianos de Teatro e a atriz Mirna Spritzer ganhou como melhor atriz no 10º Braskem Em Cena.

De onde veio o interesse de fazer a peça sobre o aspecto judeu?
Esse texto é de uma autora russa radicada na Alemanha, inspirado um pouco na vida dela e na vida de uma cantora judia, a Lin Jaldati. Ele foi traduzido em um projeto da Feira do Livro de 2014. Nós fizemos uma leitura dramática, na qual, a cada novo dia, recebíamos uma parte nova do texto, que estava sendo traduzido por um grupo de tradutores dentro da Feira. A leitura já era dirigida pela Mirah, comigo fazendo a trilha sonora e com as três atrizes. Nós gostamos muito e o pessoal do Instituto Goethe também gostou muito do projeto, pois foi uma parceira entre o Instituto e a Feira do livro que o possibilitou. Então, nós do elenco decidimos produzir a peça – tivemos apoio do Goethe, mas monetariamente a iniciativa foi do elenco. Então, a produzimos e estreamos em maio de 2015. O texto já tratava das questões judias a partir do imaginário da autora e nos interessamos por ele, porque trata de pertencimento, do peso entre a ideologia, entre a religião, entre a família, entre o mundo lá fora. E o que é o mundo lá fora, onde é a minha casa? Para um judeu dizer “em casa” é questionar de onde vem o povo judeu, toda a questão israelense. Então, há vários temas que estão dentro da peça com uma certa sutileza. Fala de homossexualidade, de violência contra a mulher. Mas é tudo muito sutil, pois a peça não é sobre feminismo ou sobre homossexualidade – é sobre os conflitos de uma família como qualquer outra

Vocês procuraram fora da peça, além do que ela já apresenta, temas específicos para estudo, ou focaram apenas no texto original?
O texto está integral, ou alterado com alguns cortes mínimos. Não acrescentamos nada, exceto uma piada no final. O texto tem várias piadas judáicas, de humor judeu, que são típicas da cultura, mas pesquisamos uma piada mais adequada, pois não gostávamos da que estava no texto. A cultura judáica, por causa do pertencimento, às vezes depende muito do local onde as pessoas vivem para que se entendam. E a peça tinha uma referência européia-americana que, para nós, ficava fora de contexto, então trocamos essa piada por uma mais neutra sobre mães judias, que a peça trata. Tem um personagem que é citado no texto, que não aparece, que é o meu personagem – o Davi. Foi uma opção da diretora Mirah Laline trazer esse personagem em um ator, já que eu estava fazendo a trilha sonora. E, claro, a Mirna, que é uma atriz judia no elenco, nos alimentou com diversos aspectos da cultura judaica que foram relevantes para a encenação, como objetos e comidas.

E vocês gostaram de conhecer essa parte da humanidade?
Com certeza. Acho que a peça trata de coisas que dizem respeito a todo mundo. A minha mãe é uma que eu vejo na mãe da peça. Minha mãe não é uma mãe judia, mas tem coisas que são de mãe. E a gente sente muito isso com nossa mãe, com nossas relações familiares em cena, e o público nos relata o impacto que é. É um diálogo de uma família real ali, vemos a família realmente descobrindo, tropeçando, se desculpando.

Essas diferenças de gerações oferecem algo novo para o público?
Estamos em um momento em que os ideais das pessoas estão voltando a importar, porque os jovens têm outros objetivos, certas ideologias que pessoas que, hoje, têm 50 ou 60 anos não têm. Então, existem conflitos de gerações hoje em dia – uma geração mais velha e conservadora, e uma geração mais nova que às vezes é um pouco desacreditada, não sabe como se encaixar nesse panorama. Vejo as pessoas relatando isso, então, a peça é muito verdadeira nesse sentido. Acho que a peça mostra os diálogos entre essas gerações de uma maneira conflituosa, como às vezes realmente acontece na vida real.

O que você gostaria que as pessoas saíssem carregando depois de verem a peça?
Eu parto do princípio que o trabalho artístico tem que dizer por si só – acho que o que a gente coloca em cena é o que é para as pessoas lerem. Eu sei que muita gente sai da peça se questionando sobre fatos históricos judaicos que não sabia, mas as relações humanas atingem o público sempre. Sempre sai com o que é humano no espetáculo. Eu gosto quando as pessoas trazem suas famílias para ver, porque às vezes a gente sabe que os diálogos entre as gerações não acontecem em casa. Às vezes fica o dito pelo não dito. E aí você leva a sua mãe para o espetáculo e vê exatamente aquilo que gostaria de dizer para ela, ou o que ela gostaria de dizer para você. E acontece uma sinergia ali entre as pessoas, que acho que pode gerar um diálogo, menos conflitos entre as gerações, um entendimento maior. Eu espero que os conflitos que mostramos em cena ajudem as pessoas nos conflitos que podem estar vivendo em suas casas. Não que o espetáculo tenha esse objetivo, mas uma coisa que percebo que é muito rica: a possibilidade de as pessoas se verem em cena é muito grande, porque é muito real.

CHC
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