Entrevista: Kaya Rodrigues, Cassiano Ranzolin, Tom Peres e Larissa Sanguiné

Início / Sem categoria / Entrevista: Kaya Rodrigues, Cassiano Ranzolin, Tom Peres e Larissa Sanguiné

Entrevista: Kaya Rodrigues, Cassiano Ranzolin, Tom Peres e Larissa Sanguiné

O Brasil nordestino de Jorge Amado encanta ainda hoje. A adaptação de “Dona Flor e seus dois maridos” de Zé Adão Barbosa, Carlota Albuquerque e Larissa Sanguiné traz o calor e o colorido do clássico e expõe as ambiguidades de uma relação, marcadas por compromisso e prazer, alegria e seriedade, trabalho e malandragem. Cuidadosamente trabalhada de forma a explorar e a festejar a cultura baiana em palcos gaúchos, a montagem dá vida às sutilezas e ao amor de quem precisa se redescobrir como mulher por meio de canções populares e referências ao candomblé. A estreia aconteceu no Porto Verão Alegre deste ano, por meio de um convite do festival, e segue em apresentações pelo estado.

Como foi adaptar o romance para uma peça teatral?
Larissa (diretora): Primeiro foi complexo, por conta do que já existia de encenação. A ideia era como aproximar e se aproximar essas pessoas aqui desse lugar, de Porto Alegre, desse universo baiano, do colorido, do calor, desse lugar que tem espaço para tudo, hora pra fazer tudo, é um tempo estendido. O primeiro desafio foi como não fazer da maneira que já foi feita, então, abandonamos um pouco olhar para essas coisas e tentamos olhar para o livro, ver o que o autor dizia. E depois, dentro disso, a gente começou a recriar coisas, então, as cenas foram se desconstruindo e a partir dessas desconstruções apareciam outras possibilidades que fossem teatralizadas. A gente estava querendo tocar as atmosferas dos personagens. O Teodoro tem uma leveza, um coisa meio alvorecer na minha cabeça. Já o Vadinho é a noite, a madrugada. A Dona Flor tem uma coisa que é única, a religiosidade misturada com uma mulher tentando se salvar. No fundo, ela tem uma liberdade, convive com esse primeiro marido, mas ao mesmo tempo tem uma sociedade que cobra que ela consiga manter esse homem dentro de casa. E ela se transpõe, descobre essa nuances. A impressão que tenho é que ela não gostar dela mais com o Vadinho, mas quando ele morre, ela se desespera. E quando encontra o Teodoro, ela se apaixona por si mesma, por ser tão admirada.

Tom (Teodoro): Tem muita coisa no livro que não foi dita na minissérie e no filme para ficar mais curto. E muita gente só conhece o filme, ou a minissérie, não leu o livro. Tem tantas explicações na história que até a gente não sabia e descobrimos.

Vocês acham que cada adaptação é uma espécie de releitura?
Kaya (Dona Flor): Com certeza. Geralmente, as adaptações de filme carregam o que o diretor enxerga e a leitura traz coisas da época. Temos a história da Dona Flor e seus dois maridos, mas é bem focado no Vadinho, que é a figura que, nos anos setenta e oitenta, mais caracteriza o Brasil: o malandro. Então, [no filme] o diretor apostou nessa figura, colocando-o num pedestal. Lendo o livro do Jorge Amado, o autor traz uma crueza nos personagens, não suaviza os defeitos do Vadinho. Ele é alcoólatra, jogador, mulherengo. Então, por que montar em 2016 Dona Flor e seus dois maridos? Foi uma pergunta que me fiz e, lendo o livro, tive que aprender a me apaixonar por essa Dona Flor. Perdoá-la. Porque é isso, sou uma mulher que, em 2016, está montando uma história de uma mulher que apanhava do marido e que continuava com ele. Como construir uma força dentro de si? E, claro, a troca com os dois [Cassiano e Tom], foi muito forte para mim, ver o que eles trazem para os personagens, porque não é mais o Vadinho e o Teodoro do Jorge Amado por quem estou me apaixonando, é o Vadinho do Cassiano e o Teodoro do Tom.

Larissa: Que é bem diferente. Se você for ver as adaptações, a construção de relação, por exemplo, do Tom e da Kaia com essas duas personagens, tem um apaixonamento que não vejo nas outras montagens. Aquele homem [Vadinho] é retratado como enfadonho quando, na verdade, é uma coisa que ela desconhece – ela não conhece a delicadeza, a gentileza. Era sempre gentil para tentar “se arrumar e poder fazer outra coisa”. A relação era muito crua também, muito visceral, sexual. E então, ela encontra uma outra relação que, talvez, tenha algo de transcendental. No livro, isso está lá e acho que eles [os atores] conseguem trazer essa sutileza. Uma coisa bem importante é a maneira com que podíamos nos aproximar desse universo baiano através das músicas. Não necessariamente postar um sotaque muito pesado, eles têm nuances de sotaques, mas a música foi muito importante. Primeiro começou com músicas pesquisadas, de folclore regional nordestino, de domínio público, e aí se percebeu que não era só isso que faria a coisa acontecer. Aí, o Álvaro [um dos diretores musicais] fez arranjos, compôs músicas para o espetáculo e ainda convidou mais duas pessoas, que compuseram algumas letras, e a Kaia teve uma colaboração com essa personagem para criar uma das músicas. Não foi apenas eles aprenderem a cantar, teve um investigação e, dentro dela, cada vez que vinha uma música parecia haver um entendimento desse universo que eles iam se apropriando e brincando com isso e trazendo esse colorido dentro dessas músicas. É um musical. Não começa sendo um musical, e acaba se tornado um musical, muito por força e trabalho desses artistas trabalhando todos juntos e acreditando.

E vocês fizeram alguma imersão na Bahia para aprender algo além, ou ouvir essas músicas ao vivo?
Larissa: Foi apenas pesquisa, mas já fui à Salvador e a Carlota [também diretora] também foi. Quando você vai lá, pode ir uma vez, não esquece mais. É um lugar que toma conta de você.

Kaya: Quando o Zé veio me chamar para fazer a Dona Flor, mencionou isso: como fazer com atores gaúchos uma montagem baiana e uma das formas de ele homenagear a Bahia é chamando essa fidelidade no texto do Jorge Amado e convidando uma atriz negra. Ele teve esse cuidado também de tocar no candomblé. Para o Jorge Amado isso faz parte da culturalidade dos personagens e foi uma das formas que a direção achou de colocar um pouco mais de Bahia.

Larissa: E não só uma atriz negra, mas uma atriz que se interessa por isso, porque poderia ser uma atriz negra que não tem esse interesse. Então, tem vivência, uma defesa sobre esses atravessamentos culturais e artísticos.

Tem algo pessoal que vocês vêem no personagem?
Kaya: Quando comecei, achei que não tinha nada a ver comigo e agora acho tudo a ver. Ela vive uma contradição muito forte nos dias de hoje. Não tem como não se identificar. É essa questão entre o certo e o errado, ser arrebatada por um amor e estar navegando nele mesmo sabendo que te faz mal. E me contempla como mulher e como pessoa. Apesar de a história ter sido escrita nos anos sessenta, se passa nos anos quarenta. Nesse mundo, incrivelmente mais machista do que é hoje, ela trabalhava, sustentava a casa, era sexualmente liberta, levantou diversas bandeiras e me identifico com isso também.

Tom: Assisti a minissérie e, depois, o filme. Eu já tinha lido quase todo o livro antes de ver o filme e o Teodoro do livro era outro. O que eu via do Teodoro no livro em relação comigo é o amor. Eu acredito no amor, como ser humano como um todo e com a minha mulher. Mas o mais curioso no espetáculo é que eu fiquei apaixonado pela minha mãe o tempo todo. Ela era casada com o Vadinho e a história é a do meu pai. Muitas histórias são iguais às do meu pai. E a minha mãe tinha essa força de encarar o mundo e o marido sem-vergonha que todo mundo amava. Enquanto a Flor estava casada com o Vadinho, o Teodoro fazia os remédios na farmácia e ficava cuidando a Flor passar. Ele não podia cursar medicina, então, cursou Farmácia, que era mais rápido, para poder cuidar da mãe. Então, fica velho cuidando da mãe e não pôde namorar. A mãe dele morre, e ele é vizinho da Flor e se apaixona por ela.

Cassiano (Vadinho): Eu acho que o Vadinho é muito amigo da galera, se dá bem com todo mundo, e acho que essa parte eu tenho. Sou bem despojado, de ficar conversando, brincando de igual pra igual com todo mundo. O compromisso para o Vadinho é uma coisa complicada, gosta de ficar livre. Aí a diferença da gente, gosto de colocar regras, compromisso.

Como foi receber a proposta de fazer a peça por causa do Porto Verão Alegre (2016)?
Larissa: Esse foi o segundo ano que eles resolveram financiar um espetáculo de abertura. Ano passado chamaram o Néstor [com Romeu e Julieta] e, nesse, chamaram o Zé. Ele, a Carlota e eu já trabalhamos juntos em algumas coisas, assim como a Simone e o Alvaro [diretores musicais]. Então, o Zé deu conta de chamar todo mundo. Foi legal, mas começou com uma proposta de financiamento “x”, que depois diminuiu, por conta da capitação de recurso. Dentro de um projeto começamos de uma maneira e, depois, restringimos bastante e acho que se vira bem. Mesmo sendo pouco, ainda alavanca alguma coisa para acontecer, porque cada vez menos temos incentivo à cultura. As leis Rouanet estão suspensas, o MinC não está entregando as verbas dos prêmios contemplados, a lei de incentivo à cultura em Porto Alegre está cada vez mais menor. Então, a gente percebe que cada vez mais essas iniciativas como o festival [Porto Verão Alegre], que é privada, estão pensando como gerar coisas. É bem louvável, de pensar como fazer.

Houve apresentações apenas em Porto Alegre? Ou apenas no estado?
Larissa: Em outros estados, não. A gente tem direitos autorais apenas no Sul, mas apenas fizemos no Rio Grande do Sul. Mas já fomos para Caxias do Sul, Carazinho e Canoas.

Vocês já fizeram algum trabalho parecido com este?
Kaya: Esse é o meu terceiro musical. Cada trabalho é bem diferente um do outro. Porque o teatro tem uma coisa mais livre; os atores são positivos, a gente constrói os personagens, trocamos com a direção, acaba que, sinceramente, cada trabalho é único. Eu acho sempre diferente.

Larissa: Os três diretores estão trabalhando juntos há bastante tempo e, mesmo assim, nada igual.

Tom: Os colegas de trabalho fazem com que a atmosfera fique de um jeito.

Larissa: A gente provoca isso, antes de eles tocarem no texto efetivamente, a gente fez um processo de investigação, com performances, com vivências, corporeidade, musicalidade. O teatro é uma representação poetizada e onírica, não é em tempo real. E o tempo depende dessa relação entre os atores e a plateia. As diferenças entre os atores também fazem o que está em cena, não só esteticamente, mas na festividade. O prazer de se estar em cena e de estarem juntos, de se reconhecer, de se conhecer, de abrir espaço para outras relações.

Tom: A generosidade também. Ajudar o colega.

Kaya: Esse é o elemento “x” que funcionou no espetáculo. Quando ele nasceu, estava imbuído de muita cumplicidade. As pessoas leem sem ler, está nas entrelinhas, pescam e se sentem cúmplices da história de alguma forma. O teatro é uma obra inacabada, vamos transformando, mas as pessoas quando assistem veem como uma obra acabada.

Larissa: E a relação entre os atores é muito estreita, só eles sabem o que se vive nas cenas, é muito intensa. Essa relação pode se desgastar ou se fortificar. Aqui, acho que se fortifica a cada coisa que passa.

CHC
Postagens Recomendadas
Tradução
Contact Us

We're not around right now. But you can send us an email and we'll get back to you, asap.

Não está legível? Troque o texto. captcha txt

Digite e pressione "Enter" para realizar sua busca