“O que eu tenho de importante para contar da minha história?”

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“O que eu tenho de importante para contar da minha história?”

O segundo dia dos minicursos dentro da programação do IX Encontro Regional Sul de História Oral continuou a fomentar a reflexão sobre pesquisas, desafios e cuidados sobre a metodologia de História Oral. O minicurso “Histórias e oralidades no contexto escolar: construindo sentidos” foi ministrado pelas professoras historiadoras Claudira do Socorro Cirino Cardoso e Hilda Jaqueline de Fraga no Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul (MUHM). A utilização das possibilidades da ferramenta na investigação de fontes orais, tanto para pesquisa quanto das comunidades escolares e realidades de seu entorno, foi uma das propostas do minicurso. A preocupação com o levantamento de memórias institucionais ligadas às comunidades educativas motivou as professoras a oferecer encorajamento aos participantes.

Como os educadores podem introduzir esse método nas escolas?
Claudira: É um leque de possibilidades bem amplas, tanto um único professor pode fazer o uso dessa ferramenta, como também esse professor pode pensar um projeto interdisciplinar, que é o mais rico, que é o que a gente sugere, que ele possa, a partir de sua escola e/ou comunidade escolar, montar um projeto em que fique bem evidenciada a participação desses diversos entes que fazem parte dessa comunidade escolar. Não só ex-professores, ou ex-diretores, ex-alunos, pais, mestres – o entorno da própria comunidade, pra que, de fato, essa proposta encontre eco e enraizamento naquele grupo que está sendo pesquisado. Então, tem uma possibilidade muito concreta, a partir de iniciativas dos professores, ou dos alunos, de diferentes grupos. Uma coisa bem significativa da metodologia é a de dar visibilidade a essa multiplicidade de histórias que são importantes, que têm significado. Às vezes, a gente acha que só faz história, que a história só existe a partir daqueles grandes eventos, daquelas grandes personagens [históricas]. E a metodologia permite justamente isso, que a gente possa estar inserida na comunidade e que a comunidade esteja se sentindo participante, consiga perceber isso e, ao mesmo tempo, se movimente no sentido de que fazem parte do processo histórico.

Que tipos de projetos vocês acham que têm como implantar nas escolas?
Hilda: Nós temos visto algumas experiências bastantes interessantes, de movimentos das próprias escolas, claro, lideradas pelos próprios professores que se interessam pelo tema, como a criação de espaços dentro da escola, de arquivos e memoriais que reúnem esse acervo dessas fontes orais, que passam a ser um referencial de identidade e de relações de pertencimento estabelecidas entre o diálogo da escola com as comunidades e que podem ser exploradas sob vários temas que têm relação com as conquistas, as lutas comunitárias, as diferentes expressões culturais, a questão da tradição da oralidade e de saberes que se dão através da oralidade. Esses temas podem se transformar em uma ferramenta interessante de preservação da memória, de visibilidade dessa memória e podem convidar a escola a dialogar cada vez mais com essas experiências históricas que são plurais e que contribuem para pensar no ensino de outra perspectiva marcada pela diversidade.

Fazendo o caminho contrário, ao invés de dizer qual o papel da História Oral na educação, qual é o papel da educação na história oral?
Claudira: [É uma pergunta] interessante.

Hilda: Bem interessante. Eu acho que o que a Hilda mencionou agora há pouco sobre essa perspectiva de a gente, de alguma forma destravar o próprio currículo [escolar], que é uma perspectiva, de certa forma, distante e já pré-pronta. A educação na História Oral pode permitir que, de fato, a gente possa, a partir desses temas e novas abordagens percebidas e compreendidas através da metodologia, trazer pra dentro da sala de aula novas aprendizagens, novos conteúdos pra se trabalhar a partir da dinâmica social. Eu acho que, com certeza, a educação pode formar “uma dobradinha” e não só do ponto de vista formal, mas também do informal. Acho que isso nos permite pensar que há de fato uma possibilidade de troca muito concreta e que, com certeza, com possibilidades de se ter rendimentos, ou resultados muito mais positivos do que trabalhar em cima daqueles conteúdos enfadonhos. Uma coisa é certa, exige muito do professor, mas que é um caminho que a gente pode apontar como muito interessante para se buscar como alternativa.

Claudira: Uma coisa muito interessante é provocar também a escola essa perspectiva de um diálogo entre as diferentes áreas do currículo, que podem se beneficiar dessa metodologia em um sentido de trazer temáticas do presente que não estão associadas a um contexto social mais amplo, mas que dizem muito dessa comunidade. Através do contato com esses relatos [a comunidade] pode ressignificar a sua história, fortalecer essas identidades e estabelecer projetos futuros em uma reflexividade sobre a sua história e trajetória, sobre aquilo que as identifica com este espaço – que pode ser a escola, o bairro, a cidade e os espaços diferentes de sociabilidade que aquele contexto oferece e que são importante para as identidades da comunidade.

E vocês acreditam que a História Oral pode ser usada como cidadania?
Hilda: Com certeza. Quando o sujeito olha para a sua trajetória e percebe que sua história faz parte de uma história mais ampla e que constrói história ao mesmo tempo, isso é um exercício de cidadania, quer dizer, é o contato, é o registo. É o exercício do direito à memória que escapa muito das concepções tradicionais de currículo e de ensino de História, baseado em documentos, escritos, nos grandes acontecimentos, nos grandes personagens. Acho que isso amplia a consciência histórica e, consequentemente, qualifica as ações comunitárias e coletivas e que fortalecem o grupo e que são possíveis de ser recuperados e resgatados através da cidadania, sem dúvida nenhuma.

Claudira: E eu acho que é uma das possibilidades de se ter sujeitos bem mais conscientes, e a consciência no sentido de despertar para a questão de cuidados mínimos, a convivência diária com o outro, com o próprios bens materiais e imateriais daquela sua região ou bairro. A ferramenta permite não concentrar esforços em unicamente um grupo de sujeitos, ou só os alunos. A riqueza está justamente nisso, em ter um poder de alcance maior desses diferentes sujeitos que formam uma comunidade, ou um bairro, ou uma região. A ferramenta aponta essas diversas possibilidades que vai ao encontro de muitos aspectos da cidadania.

Constrói muito o coletivismo, não?
Hilda: Sim, com certeza.

Claudira: E pensar essa coletividade que, em geral, é múltipla. Não dá pra gente pensar que “bom, eu formulei a minha proposta de aula”, mas será que ela dá conta de dizer coisas significativas sobre aqueles grupos? Então, quando você parte para a possibilidade de trazer essas vivências desses sujeitos, você torna muito mais interessante a sua proposta de educação, de aprendizagem.

Vai além da sala de aula.
Hilda: Sim, certeza. Acho que essa é uma das contribuições importantes da ferramenta: a sua utilização em diferentes contextos, territórios educativos, lugares de memória, não somente aqueles consagrados, mas aqueles construídos e ressignificados pelas memórias dos sujeitos, as memórias afetivas, seus projetos de vida, suas experiências sociais e culturais. Isso amplia a capacidade de leitura de mundo, que é muito importante para o exercício de cidadania. Como é que eu me situo nesse mundo? Como eu me vejo? Qual é o meu lugar? O que eu tenho de importante para contar da minha história? Isso é muito importante, porque, na verdade, toda escola, toda comunidade tem uma história para contar, basta que se tenha essa sensibilidade de escutar, de fazer esse trabalho de garimpagem, de trazer à tona essas memórias e história que são construídas pelos sujeitos e que são reinventadas o tempo inteiro, o tempo todo.

Claudira: E acho que uma coisa também legal de a gente visualizar é que, muitas das vezes, até do próprio compromisso. De um modo geral parece ser muito fácil se você diz “Bom, eu não tenho que ter vínculo com nada, não tenho responsabilidade com nada”. É quando você começa esse processo de troca, de aprendizagem, desde a criança. Quer dizer, você pensa a perspectiva de um adulto muito diferente. Uma responsabilidade com o coletivo muito maior do que o que a gente tem hoje. E um exercício que nos remete a uma solidariedade maior, a um companheirismo maior.

Hilda: A princípios de convivência, que sejam baseados na solidariedade, na troca, na escuta da diferença.

Claudira: É a gente apontar, com esses processos, com a questão da intolerância, que está muito nisso, do egoísmo de uma forma geral que está semeado. A gente encontra caminhos no meio do processo, de relações do cotidiano, de ensino e de aprendizagem e como conseguem modificar e investir para que esse quadro seja mudado. E eu acho que o uso da metodologia possibilita isso, essa convivência com a diferença muito maior.

Você falou de crianças, então como poderíamos explicara História Oral para uma criança?
Claudira: A gente tem muitas dinâmicas de atividades dos professores. Eu tive alunas minhas de estágio desenvolvendo em escola e e pensando em alguns projetos com os professores para alunos do terceiro e quarto anos, que são as entrevistas. Entrevistam o pai, o avô, uma tia. Então, depende muito do tema que você vai desenvolver em sala de aula e do que você está propondo, para que aquela criança ou adolescente possa realizar. Alguns procedimentos dentro da metodologia não serão aplicados a crianças, mas a possibilidade de ele [aluno] com um tema, um propósito e tendo a experiência já é muito realizado. Já tem muitas iniciativas que realizam trabalhos de História Oral não necessariamente [os alunos] sendo os entrevistados, mas é possível. Aí, você vai ver que tipo de brincadeira as crianças realizam, como fazem. Então, depende muito do tema que se pretende desenvolver e adequar esta proposta de trabalho ao nível de trabalho que a criança possa participar. Mas não tem limitação nenhuma em relação à idade, tanto serve para criança, como podemos pensar que serve para pessoa idosas, que é outro nicho bem importante com o qual desenvolvemos trabalhos.

 

Claudira do Socorro Cirino Cardoso (à esquerda) é Mestre em História (PUCRS) e Doutora em Ciência Política (UFRGS). É membro do GT ACervos (AMPHU/RS).

Hilda Jaqueline de Fraga (à direita) é professora da Universidade Federal do Pampa/Jaguarão e Historiadora com atuação na História da Educação e Ensino de História.

 

CHC
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